O futuro político dos três ex-prefeitos de Blumenau

BLUMENAU – Os três últimos ex-prefeitos de Blumenau terão um destino em comum depois do resultado das eleições deste ano: tentar manter um papel de liderança sem mandato eletivo. A confirmação das candidaturas ao governo do Estado reservou lugar de destaque ao trio de ex-chefes do Executivo da cidade na eleição deste ano.

O cenário com Décio Lima na cabeça de chapa do projeto do PT e João Paulo Kleinübing (DEM) e Napoleão Bernardes (PSDB) definidos no último dia do prazo como concorrentes a vice-governador, respectivamente nas alianças com Gelson Merisio (PSD) e Mauro Mariani (MDB), animou eleitores e lideranças da cidade. Se alimentou a expectativa de ter um ex-ocupante da principal cadeira da prefeitura como representante de peso depois de um longo período em busca de maior representatividade no cenário estadual.

Esta foi apenas mais uma das expectativas que a eleição deste ano desconstruiu. A chapa de Napoleão, que havia renunciado ao cargo de prefeito para disputar a majoritária, não chegou nem ao segundo turno, assim como a de Décio. O bloco em que Kleinübing concorria como vice chegou mais longe, porém não resistiu à onda bolsonarista e acabou derrotado pelo batalhão de eleitores de Carlos Moisés (PSL) no 2° turno.

Como resultado, os três ex-prefeitos que ameaçavam brilhar no cenário estadual ficam sem mandato nos próximos anos e foram obrigados a recuar nos planos de voo eleitoral. Por serem figuras ainda jovens, certamente não estarão fora dos futuros embates políticos. No entanto, se política é como nuvem, como defendia Magalhães Pinto, o primeiro desafio dos três é observar quais serão os próximos movimentos dessa mudança de ventos que direcionou o comportamento do eleitorado brasileiro.

O Santa entrevistou os três ex-prefeitos ao longo da semana que passou para mostrar como cada um assimilou o resultado das urnas este ano e como planejam o futuro. Confira a seguir conforme o período de mandato no Executivo:

NAPOLEÃO VOLTA A LECIONAR E É COTADO PARA PRESIDIR O PSDB EM SC

Napoleão Bernardes (PSDB) renunciou à segunda metade do mandato de prefeito em abril deste ano para participar da eleição majoritária estadual – como candidato ao governo, a vice ou ao Senado.

A primeira opção era o Senado. Mas depois que o partido decidiu apoiar a candidatura a governador de Mauro Mariani (PMDB), no último dia do prazo da lei eleitoral, Paulo Bauer, principal liderança tucana em SC, decidiu concorrer a senador. Napoleão ficou então com a vaga de vice-governador.

Gestão  2013 -2018
Gestão 2013 -2018

(Foto: Patrick Rodrigues / Jornal de Santa Catarina)

A outra opção, que seria buscar uma vaga na Câmara, o ex-prefeito descartou, segundo ele, por questão de lealdade. Como a definição ocorreu no último dia de convenções, não quis que candidatos a deputado da coligação que ele incentivou a concorrer soubessem pelos jornais que teriam Napoleão como adversário nas urnas.

O tucano critica a legislação eleitoral que permite essas mudanças de alianças após as convenções, mas refuta qualquer arrependimento pela renúncia em abril.

– Entendi como muita estratégica a eleição ao Senado. Para Blumenau também teria sido muito estratégico (ter senador). O pessoal foi se encantando, foi a tese que eu realmente me empolguei e é o projeto que se buscou idealizar. Mas que acabou batendo na trave pelas circunstâncias partidárias, pelo contexto da coligação e pela convocação que recebi. Mas se olhar em abril, o resultado final que se entregou, que foi a posição de vice, é o que se imaginava lá atrás – defende.

Portas abertas pela eleição

Napoleão não investe muitos segundos de seu tempo conjecturando como poderia ser o resultado em outros cenários. “No ‘e se…’ tudo é possível, o jogo está jogado”, defende. O voto de mudança, de basta e de contrariedade ao PT foram os três fatores que impulsionaram a onda Bolsonaro segundo Napoleão e, por consequência, alavancaram a candidatura de Carlos Moisés (PSL). Apesar do resultado, que segundo ele próprio não estava previsto “em nenhuma hipótese”, Napoleão se disse honrado pela convocação do partido para ser vice e que não considera a derrota nas urnas uma derrota política porque considera ter saído mais conhecido no cenário estadual.

Sem mandato e sem poder concorrer a prefeito em 2020, os planos para o futuro envolvem principalmente a sala de aula. Esta semana voltou a lecionar Direito Penal no curso de Direito da Furb. Também vai curtir a filha Manu, que completa um ano neste sábado, e cogita fazer um doutorado.

Mas alguém que está na política e no PSDB desde os 16 anos não se afastará da vida pública neste momento, mesmo sem cargo eletivo para ocupar. Napoleão é cotado por lideranças do Estado para ser o novo presidente do PSDB em Santa Catarina. No comando do partido, ele poderia comandar uma reconstrução do partido, fundamentadas no diálogo e na convergência, que são os valores que Napoleão defende para o momento atual dos tucanos. A eleição para a executiva do PSDB em SC ocorre em março de 2019.

Prejuízo ao município e possível posição em 2020

Napoleão diz que ainda não é possível apontar o quanto a cidade perde sem ter uma liderança na cadeira de governador ou do vice e que isso depende de como o novo governo irá tratar a região. De toda forma, reconhece que o eleitor desta vez deixou o aspecto regional em segundo plano na escolha dos governantes.

Sobre 2022, Napoleão nem se arrisca a conversar. Diz que está muito distante e que seu papel nesse primeiro momento será de espectador e, eventualmente, de construtor partidário. O ex-prefeito dá a mesma resposta quando questionado sobre a eleição municipal de 2020, de que “dois anos são uma eternidade”. No entanto, já sinaliza o provável apoio a uma candidatura do prefeito Mario Hildebrandt (PSB).

– Não terei participação como candidato, mas terei na construção da candidatura que a gente acredita.

KLEINÜBING MIRA FUTURO NA ESTRUTURAÇÃO DO DEM EM SC

Eleito deputado federal em 2014 após oito anos à frente da prefeitura de Blumenau, João Paulo Kleinübing (DEM) desta vez decidiu concorrer à eleição majoritária no Estado. Trocou o PSD pelo DEM no início do ano e concorreu a vice na chapa liderada por Gelson Merisio, do próprio PSD. A aliança conseguiu chegar ao segundo turno, mas perdeu por 71% a 28,9% para a chapa do candidato Carlos Moisés (PSL).

Para Kleinübing, a verticalização com a eleição nacional foi o principal fator para a vitória de Moisés. O demista cita o uso das redes sociais como um dos aprendizados que não só o DEM, mas todos os partidos precisam depurar das urnas, e se diz mais surpreendido com o desempenho de candidatos do PSL na disputa proporcional, já que em outras ondas eleitorais os reflexos ocorriam mais nos cargos da majoritária do que em postos como deputados.

Gestão  2005 - 2012
Gestão 2005 – 2012

(Foto: Patrick Rodrigues / Jornal de Santa Catarina)

Outra forma de poder

O ex-prefeito também aponta que o eleitor blumenauense deixou a questão regional de lado nesta eleição. Priorizou valores como a ruptura entre representantes e representados. Para o ex-prefeito de Blumenau, mais prejudicial do que a cidade não ter elegido governador ou vice é ter ficado sem nenhuma cadeira na Câmara dos Deputados e também no Senado.

Com essa diminuição na representatividade, na avaliação do deputado será hora de a população da cidade encontrar outros caminhos para defenderem as demandas lde Blumenau e região.

– Vamos ter que buscar outros espaços. Entidades que representam a cidade terão um papel muito importante de se manterem vigilantes na defesa dos interesses da cidade, acompanhando mais as ações do governo. A sociedade vai precisar encontrar outros meios para poder fazer isso – avalia.

Maior protagonismo ao DEM em 2020

Joaõ Paulo Kleinübing diz que sabia dos riscos de ficar sem mandato quando decidiu ir ao DEM para disputar a eleição majoritária e que não se arrepende das decisões tomadas no início do ano. Agora, se programa para focar a atividade política na estruturação do partido, já que ocupa a presidência da sigla em Santa Catarina. Ao mesmo tempo em que afasta qualquer especulação sobre ser ou não candidato em 2020, ele conta que o principal desafio atualmente é organizar o partido para as eleições municipais daqui a dois anos.

– É do jogo ficar fora. Vamos agora buscar outro caminho. A eleição de 2020 traz o desafio do fim da coligação na eleição proporcional, os partidos vão ter que se se fortalecer, pensar em chapa própria. Se nos últimos 20 anos vivemos processo de fragmentação partidária no Brasil, acho que isso agora vai se reverter. Temos nos próximos quatro anos muita coisa para pensar nesse sentido – aponta o demista.

DÉCIO QUER SER ARTICULADOR E REVERTER ISOLAMENTO DO PT

A primeira pesquisa eleitoral que colocou Décio Lima (PT) na frente na disputa para governador até empolgou a equipe da campanha, mas o otimismo logo diminuiu com os demais levantamentos que colocavam a candidatura do ex-prefeito de Blumenau na terceira colocação. Ao final do primeiro turno a candidatura petista amargou o quarto lugar, também fora do segundo turno. O partido que concorreu em chapa pura foi prejudicado também por um sentimento antipetista já característico do catarinense, mas que ficaria ainda mais forte no segundo turno da disputa presidencial.

Para Décio, essa rejeição ao partido nas urnas ocorre principalmente por causa da ligação feita pelos eleitores entre os petistas e os casos de corrupção recentes na política nacional.

– O PT tem que reagir a esse tsunami que nos últimos quatro anos tentam infligir a ele, de ser um partido com a marca da corrupção. Isso não é verdade. Se você observar o ranking dos partidos envolvidos em corrupção vai perceber que esse lugar, esse ranking não pertence a nós, muito pelo contrário. Isso é estratégia de comunicação, mostrar para a sociedade que não somos isso que tentaram infligir. É o grande desafio – avalia.

Gestão  1997 - 2004
Gestão 1997 – 2004

(Foto: Betina Humeres / Diário Catarinense)

Em 2016, Décio recebeu convite para deixar o PT e ingressar no PDT, proposta que acabou recusando para seguir no projeto petista. Agora, Décio diz que não se vê fora do PT e que não pretende deixar a sigla, a menos que isso seja decorrente de um processo nacional, por enquanto inexistente. Por enquanto, o discurso continua bastante alinhado com o PT nacional, prometendo defesa dos valores democráticos, que ele e o partido consideram ameaçados.

Futuro para articular e integrar partido

Décio é deputado federal até dezembro. Sem mandato a partir do ano que vem, diz que pretende advogar e, a exemplo dos outros dois ex-prefeitos de Blumenau, liderar o partido estadualmente. Décio já é presidente do PT em SC e diz que a reeleição dele em abril do próximo ano deve ser “um ambiente de unanimidade”.

À frente do partido, pretende corrigir o que considera um erro que prejudicou as últimas candidaturas no Estado: o isolamento. Segundo ele, no passado o partido recusou alianças que deveriam ter acontecido – cita como exemplo quando a sigla apoiou a eleição de Luís Henrique da Silveira, mas se negou a participar do governo.

– Santa Catarina tem uma divisão partidária muito pulverizada. O PT fica numa vertente de querer disputar sozinho, achando culpados e não procurando aglutinar. Na política se aglutina. No Piauí, onde o PT elegeu governador, a aliança tinha 20 partidos.

Sem pretensões para 2020

Questionado sobre uma possível volta às origens para disputar a prefeitura de Blumenau em 2020, o deputado diz não ter qualquer pretensão de candidatura neste momento e que prefere articular o partido para as eleições municipais em todo o Estado.

– Ou faço isso ou vou disputar uma eleição. Mas provavelmente serei um articulador no Estado.

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